Escreva uma narrativa sobre um personagem que fecha um capítulo e se prepara para algo novo.
“Fecha-te, caralho.”
Foi assim que ela disse, sem meias medidas e no meio de uma explosão de frustração. Apenas um frase dita enquanto fechava o portátil com força a mais.
Tinha passado as últimas semanas a tentar fazer tudo certo: ser a adulta funcional, a que dá conta do recado, que ri na hora certa, que responde a e-mails, que diz “obrigada” com um sorriso mas esconde tanto. E hoje, simplesmente… não dava mais.
Não conseguiu chorar ou gritar. Só ficou ali, sentada, a olhar para nada, com o corpo a doer como se tivesse levado porrada. Cansaço de alma, é o que dizem. Mas foda-se, ninguém diz o que se faz com isso.
Como é que se trata uma exaustão que vem de dentro? Que não tem cura com chá de camomila ou um vídeo de “self-care”?
Olhou para a parede, não era bonita ou inspiradora, era uma mera parede. Um objecto que não sente, não cede, não desaba. Pegou no telemóvel, desbloqueou, bloqueou, desbloqueou de novo. Não havia ninguém para escrever, quer dizer havia, mas não ia dizer a verdade, ia colocar mais uma máscara e fingir mais um bocadinho para fugir a si mesma. Como sempre.
E foi aí que percebeu, um momento súbito de realidade. A vida pode ser uma merda, um ciclo constante de equilibrar o que desgasta mais do que dá. E os dias não se fecham com abraços, nem sempre vem com uma lição, e raramente com uma puta de uma epifania. No meio do silêncio, com o corpo curvado, os olhos secos e o coração cheio de cacos pequenos demais para colar.
Amanhã? Amanhã não era um novo começo, era só a continuação com outra cara. E às vezes, isso tem de ser o suficiente.
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