quinta-feira, 20 de junho de 2024

#6 para 12 meses de 2024

Escreva ao redor de "Ela estava naquele momento específico de sua vida em que cada estranho que via na rua a lembrava de alguém que ela uma vez amou/odiou/perdeu.".


 


Estava a caminho da minha pastelaria favorita para ir ter um momento a sós com uma fatia de bolo de morango com cobertura de chantili. Precisava de um mimo antes de rumar à próxima missão, mas na verdade era um conforto e escapar da decisão que teria que tomar.


No entanto, o dia estava a ser estranho porque as pessoas ao meu redor traziam-me lembranças....


Da nossa história, da sua presença e o impacto que tinha na minha respiração que ficava incerta, do toque por acidente que fazia o meu coração quase saltar fora do peito.


Evitava olha-lás mesmo sabendo que me olhavam para mim com admiração, mas o meu foco era comprar o meu bolo e ir sentar-me numa mesa mais escondida onde pudesse ter sossego. Uma conversa rápida com a pasteleira de missão concluída. Podia finalmente dar uma dentada.


Até uma pessoa passar à minha frente e fazer-me lembrar claramente dele, e só podia estar a enlouquecer porque ele estava numa missão que iria demorar mais uns meses, mas ele iria voltar, e esta dinâmica já era natural para nós.


Por tantos anos o ódio e a vingança reinaram. Como o ajudei, para acabar a ser expulsa sem conseguir salvar ninguém, e ainda ter que carregar o segredo do que realmente se passou dentro daquele torre para salvá-los da morte. Scarlet, aquele nome que ele me deu provocava uma dor profunda, mas que evoluiu para uma ternura após o confronto na torre do céu. Foi um alívio voltar a ver aquele olhar do Jellal pelo qual me apaixonei enquanto criança. A armadura que carrego tornou-se apenas uma armadura, porque não precisava mais esconder a minha dor. Os meus amigos estavam à salvo e podiam viver a liberdade que Natsu conquistou, e mesmo perante o sacrifício de Simon, aquele pesadelo de anos tinha finalmente terminado. A Erza Scarlet não precisava de esconder ou reprimir a dor, ou continuar a carregar o peso dos sacrifícios, porque tinha a minha família e os meus amigos.


A cada mordida daquele bolo, é inevitável não sorrir com aquele sabor tão divinal. Vivia para estes pequenos momentos e prazeres. Podia comparar esta sensação de me sentir plena, ao conforto que ele me dava. Mesmo que fosse por breves encontros, sentir a presença e o esforço que colocava para se redimir dos erros do passado, re-acendia aquela chama.


Não iria admití-lo para além de mim mesma, mas desde o dia em que o vi partir e voltou a chamar-me Scarlet, e só se lembrando de parte das suas memórias, o que sentia por ele tornou-se intenso e desde então que não me saia do pensamento. Foi o início de sonhos sobre um futuro que poderíamos partilhar juntos, caso ele parasse de se agarrar ao passado e permitisse dar uma oportunidade ao presente e a mim. A realidade era que as duras palavras e ações que ele me obrigava a ter, eram o meu carinho e medo de o voltar a perder a gritarem. Eu queria-o, mas ambos ainda tínhamos os nossos próprios caminhos a continuar a serem percorridos sozinhos.


As lágrimas de alegria e prazer começam a cair pelo olho direito. Estava quase no final daquele pedaço de bolo, quando trinco pedaço de um morango. O fresco e leve sabor acidificado a misturar-se com o doce do bolo e chantili. Era o sabor do paraíso na minha boca.


Foram essas as exatas palavras que ele disse após me beijar. Um beijo envolvido em ternura, paixão e liberdade. Ele tinha mudado por mim, finamente estava livre para se permitir amar e viver para proteger às pessoas ao seu redor com esse sentimento. Nessa noite, nenhum de nós dormiu, só queríamos aproveitar estar na presença um do outro até o sol voltar a nascer. Entre beijos roubados, dedos entrelaçados, como duas pessoas perdidas de amores.


O inesperado que me fez perder a compostura diante do resto da guilda, que ainda é comentado mas logo abafado quando percebem que estou presente, aconteceu quando ele pede ao mestre para se juntar à Fairy Tail. Não importava mais o tempo que tivéssemos que estar separados em missões, iríamos retornar ao mesmo espaço. E eu continuava a manter bem acessas as memórias de um Jellal nada tímido, provocador e ciente do que queria e que se tornavam em sonhos profundos do que queria para nós. Apesar do efeito da magia da maga branca, gostava de manter aqueles detalhes só para mim. De como o meu corpo queria responder, mas a minha mente sabia que não era o tempo ou o lugar para deixar-me levar pelo prazer de me entregar a ele.


Acabo o bolo e relaxo na cadeira, a lamber os meus dedos porque nada podia ser desperdiçado daquela pedaço de céu. Sinto uma mão sobre a minha cara, em segundos de abrir os olhos de surpresa, sou roubada de um beijo.


-Ficas ainda mais bonita quando és apanhada desprevenida Scarlet


-Estamos em público Jellal, não devias ...


-Somos ou não um casal?


Sentando-se à minha frente, pega na minha mão e entrelaça os dedos, deixando-me completamente envergonhada mas aquele sorriso tornou-se numa fraqueza que me tornava forte.


-O que estas aqui a fazer? Disseste que a missão iria demorar alguns meses, ainda só se passaram…


Ele levanta-se e obriga-me a fazer o mesmo guiando o caminho para fora da pastelaria até os arredores da cidade, em silencio e apenas sorrindo timidamente. Por diversas vezes tentei ter uma resposta, mas ele só me apertava mais contra ele e acelerava o passo.


-Jellal, para! O que se esta a passar?! - finalmente consigo desprender-me e cruzo os braços, fazendo questão de passar a mensagem que não iria sair dali até ter respostas.


-Estamos quase lá Erza, só mais uns metros e ...


-Onde? Desde que chegas e não dizes nada… Um como estas, como correu a missão, onde estiveste ... Não que te esteja a controlar e vejo que estas bem, mas pensei que estávamos numa relação e isto são coisas que os casais partilham.


Como se preve-se aquele comportamento, ele agarra-me pela cintura e colocando uma das madeixas atrás da orelha dá-me um beijo na testa.


-A missão foi concluída mais rápido do que estava à espera porque tive ajuda. Eu estive longe a reunir tudo o que era preciso para depois estar perto. Estive a construir a casa que vamos passar a chamar de nossa.


Fico estática a processar aquele informação, e a olhar para ele enquanto só me apetecia reprími-lo por não ter dito nada.  Ele roda sobre mim e agarra-me pela cintura, abraçando-me pelas costas e apontando numa direção.


-Estas a ver aquela casa de tijolos com um alpendre de madeira escondida por aquelas Ipê-de-jardim? Foi construída de raiz, tendo em conta todas as coisas que gostas que me lembro de falares quando eramos pequenos.


Ele desliza aos mãos e entrelaça uma nos meus dedos, e na outra para na minha barriga.


-É nossa casa, onde vamos continuar a escrever a nossa história e quem sabe construir um novo futuro no seu tempo.

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